Quando ser bonita é melhor que ser valente: a transformação de Merida.

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Minha professora de português da sétima série me disse que eu “era até bonitinha, mas precisava dar um jeito no cabelo”. Porque, claro, isso é coisa que se diga a uma criança de 12, 13 anos. Corta a cena para semana passada, comigo entrando em uma loja de maquiagens. Uma menina de não mais que uns 10 anos estava sendo atendida pela maquiadora, enquanto a mãe explicava cheia de razão que a guria precisava de mais corretivo, porque tem olheiras profundas desde pequena (???).

O patrulhamento tanto sobre nossos corpos quanto a respeito dos papéis que devemos desempenhar começa cedo, bem cedo. A própria família muitas vezes é a primeira a tentar enquadrar a prole em modelos socialmente aceitos. Meninas precisam ser dóceis, educadas e vaidosas. Meninos são estimulados a serem pró-ativos e agressivos, e qualquer ponto fora da curva é motivo de preocupação e violência nos mais diversos níveis. Eu provavelmente poderia passar os próximos dez parágrafos falando sobre como a divisão de interesses e comportamentos em dois times antagônicos é redutora e perversa, mas vou deixar uma mocinha mais madura e eloquente fazer um resumo da ópera no meu lugar, para passar ao ponto que realmente me interessa: a coroação da Merida como uma Princesa Disney oficial.

Nesse fim de semana aconteceu a coroação da Merida –  a princesinha escocesa de Valente -  na Disneylandia. O que quer dizer, na prática, que a personagem entra definitivamente para a franquia Princesas e vai ajudar a encher os bolsos dos executivos da empresa com a venda de todo tipo de produtos. O problema todo – quer dizer, o problema todo para além da agressividade da propaganda infantil – é que a menina espoleta virou, do nada, um mulherão. A Merida do filme ganhou uma versão repaginada:

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Gabriela, vou te passar o número do meu cabelereiro, ele é di-vi-no!

Está mais magra, bem proporcionada. O corpo não é mais o de uma jovem em desenvolvimento e sim o de uma mulher. Ganhou um vestido novo que, para além de parecer mais desconfortável que o antigo, ainda é cheio de brilhos. A faixa de couro que servia como “pochete”de flechas virou um cinto marcando os quadris.  O decote aumentou, os ombros estão à mostra. Os olhos estão maiores, ela usa maquiagem e o cabelo passou por uma boa hidratação, porque os cachos estão “comportados”. Muito me admira que não tenham obrigado a princesa a fazer chapinha.

A questão é que nada disso combina com a personalidade da personagem: ser bonita não está na lista de prioridades de Merida. Herdeira de um trono na Escócia medieval, ela está presa à tradição que determina que os jovens de outros clãs disputem o direito a tê-la como esposa através de uma competição. Resolve ela mesma brigar pela própria mão, desafiar a família, e continuar sendo quem é, sem ninguém enchendo o saco sobre o seu lado tomboy. Brenda Chapman, a criadora da princesa e co-diretora do longa, que diz ter baseado a personagem em sua filha adolescente, não está nada feliz com a transformação da pequena. (Leia aqui – em inglês). Não é para menos: é só olhar o histórico das princesas da Disney para ver que tipo de mensagem elas estão passando para as menininhas.

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Branca de Neve, Cinderela e Aurora conseguiram seu “felizes para sempre” porque eram bonitas, o que as fez merecer príncipes encantados que se livram de todo o mal sozinhos. As sortudas que venceram na loteria genética contavam ainda com benfeitorias proporcionadas por fadas madrinhas – mulheres mais velhas e, no geral, alcoviteiras. No caso específico da Branca de Neve há toda a treta com os anões que deveria ser tabu e aparentemente não é – mas deixa quieto.

Branca de Neve, Cinderela e A Bela Adormecida ainda têm a desculpa de terem sido feitos em  de 1937, 1950 e 1959. Já A Pequena Sereia foi para o cinema em 1989 e conta a história da sereiazinha sem noção que larga tudo pra ir tentar a sorte com o príncipe encantado. Renega não apenas sua origem, mas seu melhor atributo – a voz. Falar pra quê, não é mesmo, minha gente? É essa a linha de argumentação de Ursula: “Homem abomina tagarelas/ Garota caladinha, ele adora./ Se a mulher ficar falando, o dia inteiro fofocando./ O homem se zanga, diz adeus e vai embora/ Não! Não vá querer jogar conversa fora,/ Que os homens fazem tudo pra evitar./ Sabe quem é a mais querida?/ É a garota retraída/ E só as bem quietinhas vão casar!” Seria apenas o discurso da bruxa recalcada se Ariel não conseguisse de fato conquistar o partidão de boca fechada. Vai vendo.

Bela queria “mais que a vida do interior” e, em vez de se mudar para Paris, desenvolve Síndrome de Estocolmo por seu abusivo sequestrador em A Bela e a Fera. Jasmine até tenta fugir do palácio para se livrar dos pretendentes arranjados pelo pai em Aladdin, mas no final é salva pelo rapaz corajoso de origem humilde que provará seu valor. Idem para a Rapunzel, de Enrolados. A pobre coitada da Tiana, de A princesa e o sapo, ralou a vida inteira para juntar dinheiro para abrir seu restaurante, e acabou casando com um playboy de origem nobre que não era chegado a trabalhar. Mulan é outra: apenas salvar a China não é um final bom o suficiente: é preciso que ela aceite o pedido de casamento do cidadão que a deixou pra trás quando descobriu que  o Diadorim que havia salvado a vida dele era, na verdade, Diadorina. E, ainda por cima, é sempre retratada em trajes de festa – sendo que ELA CANTA UMA MÚSICA INTEIRA SOBRE COMO SE SENTE INADEQUADA COM TODO AQUELE MIMIMI DE MULHERZINHA. Nesse sentido, a mais sortuda de todas ainda foi Pocahontas que despacha um John Smith ferido no navio de volta à Europa, porque “não vai rolar de ir junto não, querido, foi mal aí”.

Beijo e me liga se um dia você vier pra América de novo.

Beijo e me liga se um dia você vier pra América de novo.

Não me levem a mal: não tenho absolutamente nada contra o romance em si ou a felicidade conjugal real ou fictícia; inclusive sou uma das que caíram direitinho no conto do Amor Romântico, é o tipo de coisa que confesso sem problema algum. Também não estou questionando a vaidade, se a mulher assim o deseja: que use o que bem entender e que gaste 2 minutos ou 200 na frente do espelho, se isso a faz feliz. Tampouco odeio os filmes da Disney – o parágrafo anterior muito provavelmente delata o tanto de vezes que eu devo ter assistido cada filme para lembrar todas as passagens de cabeça –  mas um pouco de senso crítico é necessário. As princesas da Disney – à exceção da Leia –  não são exatamente bons exemplos de independência pra garota nenhuma, e isso é péssimo quando são elas os principais modelos nos quais as meninas acabam se espelhando.

Por isso Merida é necessária, porque é diferente.  Tem um corpo e uma aparência realista e alcançável, não anseia por príncipe encantado algum, resolve seus problemas sozinha e mostra que uma princesa também pode ser corajosa e atlética. E, no entanto, quando ganha um banho de loja, próteses de silicone, uma lipo, um dia no spa e perde seu arco característico, que mensagem é passada, a não ser a de que ser bonita é mais importante do que ser valente?

Sinto muito pela minha professora de português da sétima série, e por não ter tido maturidade suficiente para dizer a ela, na época, que fosse cuidar da vida. Também sinto pela menininha e pela mãe na loja de maquiagens, assim como sinto pelo protagonismo negado a grande parte das princesas da Disney, e por tantas outras meninas e mulheres que abraçam ideais inalcançáveis e terríveis de beleza, amor e feminilidade. Sinto muito enfim pela Merida, que, se pudesse opinar, tiraria com pressa toda a maquiagem da cara, vestiria algo confortável  e sairia a toda de cavalo por aí. No que, convenhamos, estaria mais do que certa.

(Os gifs que ilustram esse post são retirados de um programa de TV que ultrapassa todos os limites do bom gosto, da bizarrice, e das denúncias ao Conselho Tutelar – Toddlers and Tiaras – que acompanha o cotidiano de menininhas que participam de concursos de beleza)

Tá tudo bem

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Nessa semana eu estava organizando as referências bibliográficas da minha qualificação de doutorado. Havia passado das três da manhã – limite que sempre me imponho para a manutenção de uma mínima qualidade no que quer que eu esteja fazendo; depois desse horário só assisto vídeos de gatos – e estava me recriminando mentalmente por ter citado tanta gente: a lista fica grande e muito chata de compilar. No meio do caminho entre itálicos e buscas pelo nome do tradutor daquele livro que deixei em outra cidade, comecei a rir da mudança de perspectiva diante do problema que havia criado pra mim. Uma década atrás eu estaria estourando de orgulho por ter conseguido dar conta de uma bibliografia extensa.

Quando eu tinha 17 anos eu queria ser culta. Seria fofo se não fosse patético, uma vez que o desejo era muito menos nobre do que pode parecer. Eu não queria ser culta por mera curiosidade intelectual. Eu queria acalmar meu complexo de inferioridade que a todo tempo gritava: “VOCÊ NÃO É BOA O SUFICIENTE PARA ESTAR AQUI”. O “aqui” era a Faculdade de Letras para a qual eu havia acabado de entrar. Meus novos amigos citavam como óbvios nomes que jamais haviam passado pelo meu radar. E se ainda fossem só os nomes… talvez vocês consigam imaginar o tamanho da minha surpresa (e da vergonha que senti) na primeira vez em que entrei em uma locadora cult da Zona Sul e descobri que lá os filmes não eram separados por gênero, mas por diretor. “Então o diretor importa e eu não manjo nada sobre cinema também. Bacana.”

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Como é que todo mundo havia chegado pronto e só eu estava saindo da caverna naquele momento? Como é que aquele moleque que sentava atrás de mim dizia estar cansado de ler A República enquanto eu corria para a biblioteca ? E aquele veterano, que insistia que quem não gostava de Houellebecq não entendia nada de literatura? Onde é que eu havia desperdiçado 17 anos da minha vida? E como é que se escreve esse diabo de nome?

Sim, foi um longo período de sofrimento que, se visto em retrospecto, é completamente risível – como quase todos os longos períodos de sofrimento adolescente de que se tem notícia. Se me fosse dada a possibilidade de voltar uma década no tempo talvez eu fosse grosseira e impaciente, mas, claro, apenas porque sei hoje do beco sem saída para o qual esse raciocínio de “eu preciso ser culta”se encaminha. Serão necessários anos de pura angústia (“não pense você que um diploma vai resolver sua vida, madame”) para que a ficha caia e eu perceba enfim que gastei tempo demais valorizando o verniz de pessoas e produtos culturais em vez do conteúdo real.

Assustada demais com minha ignorância releguei minhas descobertas à clandestinidade. Ninguém podia descobrir meu segredo tão óbvio. “Mas é claro que adoro Truffaut, fulana”, e lá ia eu alugar cinco filmes para dormir no meio de Jules e Jim. Ou pedir para aquele amigo gravar para mim o CD de uma banda que jamais havia ouvido falar, e cujo som não me dava o menor prazer. Ou admitir assombrada para mim mesmo – jamais para as minhas amigas! – que talvez eu não gostasse muito dos romances da Clarice Lispector.

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A vontade de sacudir minha versão mais nova e talvez distribuir alguns cascudos é inevitável, mas eu provavelmente tentaria me conter. Uma lição de moral de uma viajante do tempo é tudo o que aquela menina que se cobrava demais não estava precisando. Na verdade, um simples “Tá tudo bem” já surtiria efeito. “Tá tudo bem você não saber ainda quem é Borges, tá tudo bem não ter ido aos grandes museus da Europa, tá tudo bem ter 17 anos e o mundo ser justamente a coisa nova e antiga que deveria ser. Você não precisa fingir, não precisa conter o entusiasmo, não precisa tratar sua curiosidade como deformação de caráter. Tá tudo bem.˜

“E vai ficar tudo melhor, porque você vai perceber que as pessoas mais interessantes que vai encontrar pelo caminho não costumam se gabar do arquivo de referências que guardam na cabeça. Elas são, em geral, muito abertas e mesmo ávidas para compartilhar suas paixões com você. E que ser culta, para além de uma meta estúpida, depende sempre de um referencial. Você ainda vai largar livros de filosofia e tratados de teoria literária para se dedicar sem culpa a seriados americanos e romances de ficção científica. Vai intercalar romances de prosa rebuscada com livros para serem lidos em viagens de ônibus, em uma tarde despreocupada, com a leveza que dedicamos aos casos passageiros de amor. Vai descobrir que há mais profundidade em algumas histórias em quadrinhos do que no trabalho de muita gente que tanto te intimidava.”

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“Porque você não poderia estar pronta aos 17, assim como não está aos 27 e seria de uma presunção que você não consegue mais sustentar achar que estará pronta em algum momento da vida, seja lá para o que for. Há sempre novos filmes, livros, descobertas científicas, lugares a visitar, pessoas a conhecer. Há sempre espaço para mudar de ideia e de atitude, e desdizer certezas que haviam sido colocadas em pedestais. Há sempre tempo para a contemplação, para a criação e a queda de heróis, para gostar de novas bandas ou preferir ficar com as velhas por tempo indeterminado. Há dias de prosa e noites de poesia e semanas inteiras em que não há tempo ou vontade de ler coisa alguma. E sempre estará tudo bem enquanto você se mantiver fiel ao que é bom e verdadeiro para você, ao que realmente te faz feliz e ao que corta o seu coração. No fim das contas, o tamanho da bibliografia não importa, a não ser em relação a sua preguiça em digitá-la. E, imagine só, dez anos depois você ainda não leu e tem que recorrer ao Google para escrever Houellebecq corretamente. E o mundo não acabou por causa disso. Aliás, tá tudo muito, mas muito bem, bem de verdade. E não do jeito que você imaginou, o que é melhor ainda.”

(Se você não conhece as imagens que ilustram esse post, por favor, corra para o blog Stuff no one told me, de Alex Noriega)

Por uma páscoa mais vulcana: Leonard Nimoy lê Desiderata

Vida longa e próspera às formas de vida de boa boa vontade.

Vida longa e próspera às formas de vida de boa vontade.

Como a maioria dos encontros felizes na internet esse aconteceu por acaso. Posso estar um pouco atrasada, mas acabei de descobrir que em 1968 Leonard Nimoy lançou seu segundo – sim, segundo! – álbum, intitulado Two sides of Leonard Nimoy. E nesse trabalho há uma faixa chamada Spock Toughts – que era justamente o que estava ouvindo, quando comecei a estranhar.

Eu conhecia aquele texto, claro, era severamente familiar. Mas de onde? Demorou um pouco até que eu descobrisse que os pensamentos do Spock são conhecidos por outro nome por aí : Desiderata, ou “aspirações”,  em latim. Um poema  de Max Ehrmann, escrito em algum momento da década de 20 do século passado e que todo mundo que tem uma tia que gostava de enviar apresentações em Power Point por e-mail decerto já recebeu, mesmo que os créditos tenham aparecido como “texto apócrifo encontrado em 1692 na igreja de São Paulo, em Baltimore” ou, sei lá, Martha Medeiros – mas vamos combinar que esse é o menor dos problemas da sua tia, e não se fala mais nisso.

Apesar de ter virado o paraíso do glitter, do comic sans e das montagens com paisagens inspiracionais (não acreditam em mim? Vejam por si mesmos) o texto não perdeu a sua força, e mais do que nunca funciona como um credo pessoal em tempos como esses. Como faltam ainda duas horas para o fim do dia, me pareceu adequado que eu postasse aqui o áudio do Nimoy, o texto original em inglês e uma tradução – desejando uma páscoa mais vulcana a todos nós.

Para quem acredita que a Páscoa significa a festa da ressurreição de um deus que pregava o amor e a tolerância e que acabou morto na cruz justamente por isso. Para quem revive o costume pagão da celebração do retorno do sol no Hemisfério Norte após um inverno rigoroso e escuro. Para quem usa o feriado para voltar para casa e ficar com a família, para quem se entope de chocolate e não quer saber de mais nada, para quem escolheu fugir da pressão das festas e ficar sozinho, para quem é de Kirk, de Spock e para quem não é nada disso também. Feliz Páscoa, pessoal.

Desiderata

Go placidly amid the noise and haste,
and remember what peace there may be in silence.
As far as possible without surrender
be on good terms with all persons.
Speak your truth quietly and clearly;
and listen to others
even the dull and the ignorant;
they too have their story.

Avoid loud and aggressive persons,
they are vexations to the spirit.
If you compare yourself with others,
you may become vain and bitter;
for always there will be greater and lesser persons than yourself.
Enjoy your achievements as well as your plans.

Keep interested in your own career, however humble;
it is a real possession in the changing fortunes of time.
Exercise caution in your business affairs;
for the world is full of trickery.
But let this not blind you to what virtue there is;
many persons strive for high ideals;
and everywhere life is full of heroism.

Be yourself.
Especially, do not feign affection.
Neither be cynical about love;
for in the face of all aridity and disenchantment
it is as perennial as the grass.

Take kindly the counsel of the years,
gracefully surrendering the things of youth.
Nurture strength of spirit to shield you in sudden misfortune.
But do not distress yourself with dark imaginings.
Many fears are born of fatigue and loneliness.
Beyond a wholesome discipline,
be gentle with yourself.

You are a child of the universe,
no less than the trees and the stars;
you have a right to be here.
And whether or not it is clear to you,
no doubt the universe is unfolding as it should.

Therefore be at peace with God,
whatever you conceive Him to be,
and whatever your labors and aspirations,
in the noisy confusion of life keep peace with your soul.

With all its sham, drudgery, and broken dreams,
it is still a beautiful world.
Be cheerful.
Strive to be happy.

Max Ehrmann

Desiderata

Siga tranquilamente entre a pressa e a inquietude, lembrando-se que há sempre paz no silêncio. 

Tanto quanto possível, sem se humilhar, mantenha boas relações com todas as pessoas. 

Fale a sua verdade mansa e claramente e ouça a dos outros, mesmo a dos insensatos e ignorantes, pois eles também têm sua própria história. 

Evite as pessoas escandalosas e agressivas. Elas afligem o nosso espírito. 

Se você se comparar com os outros, tornar-se-á presunçoso e magoado, pois haverá sempre alguém superior e alguém inferior a você. 

Você é filho do Universo, irmão das estrelas e árvores. Você merece estar aqui, e mesmo sem você perceber, a Terra e o Universo vão cumprir o seu destino. 

Desfrute das suas realizações, bem como dos seus planos. Mantenha-se interessado em sua carreira, ainda que humilde, pois ela é um ganho real na fortuna cambiante do tempo. 

Tenha cautela nos negócios, pois o mundo está cheio de astúcias, mas não se torne um cético porque a virtude sempre existirá. Muita gente luta por altos ideais e em toda a parte a vida está cheia de heroísmo. 

Seja você mesmo, principalmente. Não simule afeição. Não seja descrente do amor, porque mesmo diante de tanta aridez e tanto desencanto ele é tão perene quanto a selva. 

Aceite com carinho o conselho dos mais velhos e seja compreensivo com os arroubos inovadores da juventude. 

Alimente a força do espírito que o protegerá no infortúnio inesperado, mas não se desespere com perigos imaginários. Muitos temores nascem do cansaço e da solidão, e a despeito de uma disciplina rigorosa. Seja gentil para consigo mesmo. 

Portanto, esteja em paz com Deus como quer que você o conceba e quaisquer que sejam seus trabalhos e as aspirações. Na fatigante confusão da vida, mantenha-se em paz com sua própria alma, apesar de todas as falsidades, fadigas e desencantos. O mundo ainda é bonito. 

Seja prudente e faça tudo para ser feliz.

[Tradução de Iva Sofia Gonçalves Lima]

Rivalidades

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Desculpa aí, sociedade, mas eu sempre torci pro Tom

Eu até gosto de tomar partidos e despejar argumentos inócuos em discussões sem sentido – toda essa conversa fiada faz parte de quem eu sou. Não que as coisas precisem ser excludentes – porque não precisam e, em geral, não são – mas simplesmente porque é divertido fincar bandeiras aqui e ali de vez em quando. Assim sendo, prefiro gatos a cães, Star Trek a Star Wars, Nintendo à Sony, DC a Marvel (por conta da Vertigo, claro) e Álvaro de Campos a todos os heterônimos.

Mas algumas rivalidades simplesmente não fazem sentido na minha cabeça. Rio de Janeiro e São Paulo, por exemplo. Talvez porque eu seja do interior e só tenha ido viver no Rio no fim da adolescência eu vejo o fogo cruzado e não entendo. Sim, a cidade é linda, cheia de possibilidades e grande parte da minha vida está lá, o que não me impediu de me apaixonar por São Paulo quando eu sequer pensava que poderia migrar pra lá um dia. Brasil e Argentina é outra, e dessa não posso me esquivar dizendo que estou em território neutro, já que Petrópolis é um canto esquecido do mundo mas, ainda assim, consta no mapa como território verde e amarelo. Só posso supor que meu distanciamento tenha algo a ver com meu completo desinteresse em futebol – prefiro Pelé a Maradona, mas é só por causa desse vídeo aqui - meu amor pelo dulce de leche e escritores portenhos.

Recentemente descobri outra discussão na qual simplesmente não consigo tomar partido:  a do tablet versus o e-reader. Os leitores digitais finalmente chegaram ao Brasil no final do ano passado. Kindle e Kobo entraram no mercado e, embora eu estivesse curiosa, esperei a poeira assentar para ver o que ia fazer antes de gastar meus tão suados cobres em algo que talvez eu sequer fosse usar com frequência (o que foi uma coisa boa, já que o Kobo Glo chegou por aqui 50 pratas mais caro que o modelo touch). Quando em janeiro decidi comprar um Kobo uma parte dos meus amigos havia aderido e me parabenizou; outra resolveu me achincalhar por desejar algo tão unifuncional em 2013, quando já devem existir aplicativos para fritar ovo em telas de retina, “pelamordedeus, Gabriela, deixa de ser cafona.”

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“Vamos resolver isso lá fora!”

Mas minha compra foi postergada até fevereiro porque eu tinha um tablet emprestado para brincar, e baixei aplicativos do Kindle e do Kobo para testar as funcionalidades. Enquanto me despia de preconceitos e me abria ao múndo mágico dos livros digitais (tá muito 50 tons de tecnologia essa frase?) comecei a ler sobre o dilema, e descobri opiniões inflamadas de ambos os lados. Quando não se pode dar pitaco ou tomar partido de uma querela qualquer ou se deixa o assunto de lado ou se coloca uma pipoca pra pular na panela, que é pra acompanhar a discussão com pompa e circunstância. Acho que não preciso dizer que tipo de pessoa eu sou.

Só para citar textos em português aqui, do meu lado esquerdo, defendendo o peso-pena à base de e-ink, temos argumentos como:

“Não há o que discutir, é a verdade insofismável, e em realidade, se não fosse pelo aparelho e-reader, apesar da maioria de nós possuir tablets, ainda estaríamos lendo no papel, cortando árvores, gastando combustível e esperando o correio entregar nossos livros, pois é fato, o tablet é uma ferramenta ruim para leitura, você até pode colocar um parafuso com um martelo, mas assim como o tablet, definitivamente, é a ferramenta errada para a tarefa.” (aqui)

Enquanto do lado direito, um artigo defendendo os aplicativos para ler em tablets sugere que:

 ”Para valer a pena ter um aparelho exclusivamente para a leitura de e-books, o consumidor tem que ser o que os americanos chamam de heavy reader. Ou seja, tem de comprar e ler muitos livros. Infelizmente, o número deste tipo de leitor é baixíssimo no Brasil, país onde, segundo a pesquisa Retratos da Leitura de 2011, apenas 50% da população leu pelo menos um livro ao longo de três meses e onde a média de livros lidos por trimestre é 1,85 – que cai para 0,82 se considerarmos livros inteiros.

Por esses motivos, eu acredito que o aparelho de leitura do brasileiro será o tablet e, em segundo lugar, o smartphone. Os e-readers dedicados têm um papel de marketing importante, ao conquistar espaço nas livrarias e aparecerem na mão de formadores de opinião. Aquele primo nerd sempre vai ter um Kindle ou Kobo, mas o resto da família vai usar aparelhos multifuncionais para a leitura.” (aqui)

Resumo da ópera, ou, ao menos, da ópera da minha vida. Sou a pimpona proprietária de um Kobo faz um mês. Acho que não fico tão feliz com um aparelho eletrônico como estou com meu e-reader desde que comprei meu primeiro MP3 player. Mas continuo sonhando, desejando e juntando um dinheirinho pra comprar meu tablet. Para levar filmes e séries para ver no ônibus, para ler quadrinhos, para jogar Angry Birds numa tela maior, qualquer coisa que o valha – e talvez para ler também. Há sempre aqueles livros que só existem em PDF, e qualquer um que já tenha tentado ler PDF em um e-reader sabe que a vontade de xingar a mãe dos desenvolvedores da tecnologia é grande demais  – o esforço simplesmente não compensa.

A compra do meu Kobo e a impossibilidade de decidir entre e-readers e tablets não é apenas um anticlímax ao que parecia ser um Let’s call the whole thing off, mas também é uma péssima ideia em termos econômicos porque, convenhamos, DE ONDE É QUE EU VOU TIRAR DINHEIRO PRA TANTO BRINQUEDO CARO, MEU DEUS?

Mas essa sequer é a questão que mais me preocupa no momento. Na rivalidade que importa (ou que me importava, até pouquíssimo tempo atrás) livros de papel versus livros digitais, bem… eu oficialmente virei a casaca, joguei a toalha, reneguei a compra de estantes novas, sou uma pária entre os amantes do cheiro de livro. Mas toda essa vergonha e corrupção vai ter de  ficar para o próximo post, com a resenha do meu Kobo.

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“Você traiu o movimento celulose, véio!”

Marginalia: um exercício de notas irrelevantes

Sinto um imenso respeito por quem consegue produzir conteúdo (de qualidade) em cima de suas leituras. E eu só posso bater palmas para cada pessoa nessa Internet Grande Sem Porteira que dedica seu tempo e disposição para fomentar discussões (de qualidade) sobre Literatura com posts, resenhas ou vídeos (de qualidade). Nesse caso específico é melhor pecar pela redundância. Por alto  - e na sonâmbula altura da madrugada em que escrevo –  consigo pensar em uma diversos nomes que mandam muitíssimo bem em seus respectivos blogs, como a Camila, a Luara, a Juliana, a Patricia e a Nina - mas há tantos outros por aí descrevendo, dissecando, analisando traduções, comparando versões de editoras e (por que não?) tietando e defendendo seus autores favoritos. Ou seja, fornecendo material para um dos meus assuntos favoritos.

Eu sempre acho uma excelente ideia e penso que, com um pouco de organização, poderia fazer o mesmo. Claro que “um pouco de organização” na minha vida geralmente significa “esforço hercúleo”, mas olha só que liberdade: poder falar de literatura sem ligar para o protocolo acadêmico. Desenvolver uma ideia qualquer ou dizer que gosto de um autor “porque sim e se não gostou que vá me xingar na caixa de comentários”.Analisar uma parte que me chamou a atenção sem precisar ter ou teoria por trás, ou procurar subterfúgios para explicar como é que tal autor esloveno se encaixa na minha pesquisa sobre poesia etíope. Melhor do que isso: tomar notas para não esquecer, para o bem ou para o mal. Odeio a sensação de ter lido um livro e depois de um tempo não conseguir me lembrar do enredo. Por exemplo, eu vivo dizendo que não gostei de O Apanhador no Campo de Centeio, mas li há tantos anos que já não me lembro mais o porquê – talvez seja hora de voltar a ele.

Tentando equilibrar minha  atávica e proverbial preguiça com a utopia de manter um registro regular das minhas leituras, pensei em um meio termo: notas sobre o que andei lendo à guisa de marginália. É claro que isso vai acabar excluindo todo e qualquer componente informativo e crítico, bem como qualquer outra utilidade. Mas se eu não continuar acreditando nas coisas perfeitamente inúteis, quem é que vai fazer isso por mim? O que, evidente, é apenas mais uma desculpa, e eu poderia passar a noite nisso, MAS… somente essa vez vou tentar algo diferente e, de fato, tentar executar aquilo que me propus. Sorteando ao acaso da memória, dois livros vieram à cabeça. Vamos a eles.

 1 – Deus, essa gostosa – Rafael Campos Rocha deus Antes de fazer a Joan Osbourne e sair se perguntando como seria se Deus fosse um de nós, esqueça: a Deus  de Rafael Campos Rocha não é uma de nós. Quer dizer: quantas donas de sex shops gostosas, lutadoras de boxe, oniscientes, fãs de futebol e parceiraças de Karl Marx e Bakunin você conhece?  Pois é, foi o que imaginei. Deus é uma das personagens mais interessantes  dos últimos tempos, e olha que representações artísticas do divino  (e, consequentemente, do demoníaco)  não são nenhuma novidade.

Mesmo para quem é religioso, (imagino que) o apelo é (possa ser) inegável. A graça do projeto não está na heresia, isso seria uma bobagem reducionista e panfletária. Para além da delícia que é acompanhar o cotidiano dessa personagem, a humanização do Criador numa potência feminina cheia de graça brinca com conceitos interessantes de sagrado, profano, o papel do corpo (e põe corpo nisso!) na transcendência. Quanto ao traço, não sou nenhuma especialista, mas achei divino – com o perdão do trocadilho.  O primeiro álbum de Deus me deixou ansiosa pelos próximos. Agora eu acompanho o blog do autor só para ter um gostinho do universo da Criadora.

2 – Coma e emagreça com Ficção Científica, uma antologia coma e emagreça com ficção cientifica   “Os três organizadores desta antologia (Isaac Asimov, George Martin e Martin Greenberg) eram incomumente belos, espantosamente inteligentes e tremendamente bem sucedidos com o sexo oposto… Mas eram gorduchos. Para ficar na moda, decidiram emagrecer. Sendo gente de ficção científica, quiseram fazer a coisa à maneira da ficção científica. E por isso resolveram fazer este livro de dieta de ficção científica.  O livro teve um sucesso tão grande que dizem que um deles nunca mais voltou a comer.”

Uma proposta absurda simplesmente não pode se agitar na minha frente: eu mordo a isca com facilidade. Está certo que não comprei esse livro – é fácil achá-lo para download por aí, mas ninguém ouviu isso da minha boca.No entanto eu me conheço: teria comprado o dito cujo se o visse numa livraria, com essa irresistível capinha que não é retrô: a edição é de 84. A proposta é pirada nesse nível:

 - Ei, que tal se reuníssemos histórias sobre gordos numa antologia de ficção científica?

- Puxa, boa ideia, aposto que nunca ninguém pensou nisso antes. PORQUE, NÉ.

A leitura toma um par de horas e o conjunto da obra, bem, é sofrível. Há bons textos, “coincidentemente” assinados pelos nomes de peso da antologia: Asimov, H.G. Wells, Orson Scott Card. Mesmo o Stephen King não está mal – embora o conto dele destoe da temática dos outros: é sobre tabagismo, o aumento de peso é efeito colateral. Os outros contos parecem episódios ruins de Twilight Zone, mas são divertidos. Ou seja, ainda que não combatam  a obesidade – não dá pra traumatizar, nem de longe – o livro é uma excelente companhia no metrô, no ônibus e na fila do Mc Donald’s.

Uma citação inesperada: o conto de H.G. Wells chama-se “A verdade sobre Pyecraft” e foi escrito em 1903. Nele o personagem do título, um homem obeso cujo sonho era “perder peso” acaba tendo seu desejo realizado, mas não da forma como gostaria: continua amorfo, mas pesa tanto quanto um balão de hélio e precisa segurar-se aos móveis para não bater com todo o corpo no teto do quarto. Às tantas outro personagem precisa adverti-lo sobre os perigos de sair de casa na condição em que se encontra: – (…) Se sair às ruas subirá e subirá – lancei um braço para cima – Terão que mandar Santos Dumont atrás de você para trazê-lo novamente pra baixo.

Tá fácil pra ninguém, sr. Pai da Aviação.

Bons escritores, péssimos amigos

Nossos escritores favoritos nem sempre seriam nossos amigos. É claro que não estou falando sobre como os autores lidariam com leitores específicos – isso é lá problema deles e eu não tenho nada com isso – mas em como nos sentiríamos ao travar conhecimento com nossos ídolos. Sabe todo aquele papo de “O livro tal é meu melhor amigo”? Uma coisa é colocar o romance de fulano permanentemente na cabeceira, outra muito diferente é convidar o autor para na sua casa, deixar que ele prove o seu espaguete aos quatro queijos e ceder a ele o controle remoto da sua TV para escolher o filme da noite. Esse raciocínio, é claro, pode ser aplicado a qualquer artista; uso escritores apenas porque o pensamento me ocorreu enquanto eu terminava um livro.  A cena de Meia Noite em Paris em que o personagem do Owen Wilson dá de cara com o Hemingway ilustra bem o que estou tentando dizer. O seu escritor do coração pode não ser exatamente agradável, para dizer o mínimo; pode até ser um completo idiota, ou uma mala sem alça, ou uma pessoa ruim que calhou de escrever bem. O mundo é injusto mas o choro é livre e sempre podemos fazer terapia em grupo.

A reação de Clarice ao meu post

“Você realmente vai escrever um post sobre isso? Aff.”

Dois minutos olhando para as minhas estantes e já estou agradecendo por saber que o contato mais íntimo que vou ter com certos nomes será através da celulose. Exemplo: eu adoro grande parte das narrativas curtas da Clarice Lispector – o que eu penso sobre os romances fica para um outra vez. Gosto especialmente dos textos jornalísticos dela. As crônicas não raro são inspiradas e redondinhas. E vários contos me encantam não apenas emocionalmente, mas também por sua estrutura. Tenho alguns livros dela aqui em casa – em especial Felicidade Clandestina - que não empresto, não troco e não vendo. Mas ponha a mão na consciência, dileto e enternecido leitor. Realize por um momento fazer parte do círculo de amigos da Clarice.

Talvez você se veja com folga nesse papel, talvez seja uma honra para você. Você lê Clarice desde os 15 anos e ela te entende como ninguém, certo? Bem, isso vai dos temperamentos e suscetibilidades de cada um. Para mim seria nada menos do que um martírio, tenho certeza. Só consigo pensar que a cada crise dela, após ouvir horas de monólogos intermináveis e fluxos de consciência que deixariam qualquer aspirante a Molly Bloom no chinelo eu entregaria os pontos e diria algo do tipo: “Gata, sai dessa. Deixa de mimimi e vamos tomar um chope. CÊ TÁ MUITO CHATA, FILHA.”. No primeiro olhar entediado de “Você não entende minha complexidade, seu monstro insensível” eu dispararia porta afora para nunca mais voltar.

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“Como assim “dormindo”? Que tipo de mundo é esse que não posso ligar pra ninguém às três e meia da manhã?”

Na outra ponta da estante em que Clarice repousa está meu adorável Portable Dorothy Parker. Deixo as duas separadas por vários livros para não evitar conflito: os temperamentos de ambas não poderiam ser mais diferentes.  De Madame Parker sou realmente fã. Admiro o ritmo da prosa, a sagacidade, o bons usos da ironia ou não (principalmente “ou não”). Nem sempre sutil e, no entanto, permanentemente elegante: tudo o que eu gostaria de ser quando crescer. Fora a propensão para armar barracos épicos e hilários. Desde que eu li o único livrinho de contos dela publicado no Brasil (que conta com a seleção e um excelente prefácio do Ruy Castro), essa mulher conquistou na minha estante e na lista de textos aos quais fico sempre voltando – seja por deleite, seja para aprender, seja para dar umas gargalhadas às custa de algum pobre coitado que ela resolveu atormentar por um motivo ou outro. Agora, pensando mais um vez na questão da amizade…acho que se a Dottie me adicionasse no Facebook eu diria não.

Não me levem a mal: imagino o quão divertido seria receber um convite para uma noite na round table do Algonquin. Ou mesmo ser chamada para uma festa na casa dela. No ápice da Lei Seca nos EUA Dorothy recepcionava melhor porque destilava o próprio gim na banheira do apartamento – e assim transformava suas festas em eventos concorridos. Mas você tá sentindo aquela pinta de amiga inconveniente? Pois é, eu também. Pensa comigo: ser amiga de Dorothy Parker envolve receber ligações no meio da madrugada para reclamar da vida e dos amores frustrados, isso quando a moça não resolvesse pedir socorro: “dá pra vir me buscar na birosca tal por que não estou conseguindo voltar sozinha?”  Fora que ela personifica aquela amiga que vai sempre vomitar nos seus sapatos novos no fim da noite, SEMPRE. Vai mirar a sarjeta e acertar seu scarpin.           Quem aguenta?

Entre Clarice e Dorothy – só para ficar na minha prateleira cheia de outras moças de fino trato & letra – há livros de Sylvia Plath (imagina você se metendo em briga de marido e mulher?), Zelda Fitzgerald (idem, e ao cubo!) e Virginia Woolf (que, para além da depressão crônica diziam ter um gênio terrível). A única da estante com quem eu tentaria uma aproximação seria Gertrude Stein – mas quem é trouxa o suficiente para não querer frequentar a casa dela e conhecer os grandes nomes do modernismo que zanzavam por Paris?

Cabe ressaltar que em nenhum momento quis dizer que eu sou um ser humano super bacana e que as pessoas fazem fila na porta para serem minhas amigas, porque isso não é nem remotamente verdade. Todos os escritores que eu dispensaria do meu círculo teriam excelentes motivos para jamais olharem na minha cara. A razão pela qual me esforço para ser boa para os amigos que já tenho é o fato de ter sido difícil achar gente que tivesse paciência suficiente para me aguentar. E olha que eu não sou nem escritora, nem famosa e sequer tenho uma banheira em casa. Quer dizer, a banheira eu posso até arrumar, caso alguém faça questão – o resto é um pouco mais difícil.

Mas é por essas e outras que não lamento ter conhecido grande parte dos autores por trás dos livros que admiro. Até acho que alguns bateriam com o meu gênio, mas talvez seja melhor não arriscar. Assim posso apreciá-los sem influência e evitar mesquinharias que permeiam as relações humanas como: “Esse é um excelente verso, sem dúvida,  mas e daí? O safado continua me devendo 200 pratas”. Na estante eles se comportam muito bem, obrigada, vamos continuar assim.

Causa mortis: distração

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“Caso eu não a veja mais… boa tarde, boa noite e vá para o inferno”

Disclaimer: Não espero que acreditem nas minhas histórias, já que eu mesma sinto dificuldade em fazer isso. Sempre que me pego em alguma situação absurda fico esperando o Ivo Holanda ou o Sérgio Mallandro brotarem do chão. Eu só não deliro que vivo em um reality show porque, convenhamos, sei que não daria ibope suficiente para 27 temporadas. Tenho um amigo que diz que a explicação é simples:  estou em coma há 20 anos e tudo o que vivo é mera invenção do meu cérebro perturbado. Ou seja: eu poderia ser uma borboleta sonhando que sou um sábio chinês, poderia ser um sábio chinês sonhando que sou borboleta mas estou aqui aproveitando meu estado vegetativo  para escrever em um blog para leitores imaginários. E aí eu pergunto: faz diferença se alguém acredita ou não? Pois é.

Eu vou morrer de distração – e isso vai estar escrito no laudo do legista.  Vou esquecer de olhar para os dois lados antes de atravessar a rua, ou  a música que sai dos fones de ouvido estará alta demais para que eu ouça o som das buzinas. Vou tomar os remédios errados, ou os remédios de outra pessoa. Vou perseguir o Papa-Léguas até o precipício e continuar correndo até descobrir que não há mais chão sob meus pés. Ou vou arrumar confusão sem saber que estou arrumando, como hoje.

A cena: seis da tarde em uma lanchonete petropolitana. Estava pacientemente esperando meu suco e sanduíche enquanto lia um livro sobre como o acaso é um  fator determinante em nossas vidas. Quer dizer, piada pronta para que o Universo resolva me constranger. E, no entanto, pergunta se  pensei nisso antes de sair de casa? É claro que não. Pois bem. Livro, lanchonete, calor e, de repente, ouço alguém gritando. Não estou exagerando: é uma lanchonete particularmente barulhenta – só como lá porque é barato. Para se sobressair no burburinho uma voz tem realmente que se esforçar um bocado. Para ser sincera eu não teria prestado atenção na coisa toda se não tivesse percebido que o grito se dirigia a mim.

Ei, você! É, você mesmo, não se faz de sonsa. Desde que você chegou que está olhando pro meu noivo. 

Oi? Eu até tenho o costume de olhar para o nada de vez em quando. Sabe quando você está pensando em qualquer coisa aleatória e fica tão imerso naquilo que não percebe que está encarando algo ou alguém, mesmo sem ver? Mas eu tenho certeza de que não foi o caso: desde o momento que cheguei estava lendo meu livro. E, de mais a mais, se você acha que tem alguém olhando fixamente para o seu noivo: você a) Pergunta para ele sutilmente de onde pode ter saído essa stalker ou b) Faz um escândalo sem precedentes em uma das galerias mais movimentadas de uma cidade pequena? Tempo para pensar enquanto eu continuo narrando o chilique.

Você devia se dar ao respeito! Não tá vendo que ele tá acompanhado? Não tá vendo que ele tá de aliança? Ó, ó, olha só para a minha aliança [agitando a mãozinha no ar], eu cheguei primeiro!

Eu poderia ter respondido uma série de respostas; pelo menos três passaram pela minha cabeça naquele momento:

1 - É que eu sinto um prazer mórbido em desmanchar casais felizes, sabe. É tipo um hobby.

2 - Na verdade eu estava olhando pra você, sua linda! Larga esse cara e vamos fugir juntas!

3 - FBI, mãos para cima! Esse rapaz é suspeito de uma série de assassinatos no Kansas, moça, melhor se afastar enquanto eu o algemo.  - estou fazendo maratona de Criminal Minds, relevem. 

Mas daí eu cometi um grande erro. Um daqueles que pretendo levar para a vida, que jamais repetirei na próxima vez que me acusarem de estar dando em cima do noivo de alguém – o que, convenhamos, eu espero que seja nunca mais: decidi olhar para a cara do cidadão. Piada pronta, nível Zorra Total: o rapaz desafiava o conceito de simetria bilateral. Olha, nada contra, eu mesma não sou nenhum modelo de beleza e tampouco esse é o critério decisivo para que eu me interesse por alguém… mas para fazer essa balbúrdia toda vamos combinar que o rapaz precisava, no mínimo, ser Apolo encarnado. Eu não aguentei: comecei a rir. E uma daquelas risadas incontroláveis, de sair lágrimas dos olhos. Não era uma questão de deboche, mas de traição fisiológica: meu corpo assumiu as rédeas da situação e me deixou vermelha de tanto rir.

A noiva, é claro, não gostou nada nada da minha reação (mas o que é que ela esperava?) e levantou da cadeira para continuar a briga na minha mesa. Nesse momento finalmente resolveram intervir e um cara que tinha pinta de gerente acalmou a cólera territorialista da mulher. Fez com que ela pagasse a conta e saísse da lanchonete com um noivo que, coitado, não abriu a boca durante o quiproquó e não sabia onde enfiar a cara. O resto dos funcionários – bem como grande parte das mesas em volta – me ofereceram solidariedade enquanto eu tentava deglutir meu lanche em velocidade recorde para sair dali o mais rápido possível. Fui pagar a conta e ainda tinha um pedaço de pão de forma integral entalado na garganta.

Eu vou morrer de distração, é certo. Mas não hoje. Talvez amanhã.

Venham conhecer o Edifício Cinza!

ImagemUm post que não é post, mas convite. O Raphael, do Sob o Boné, gentilmente me me chamou para fazer parte de um projeto de escrita colaborativa. Mentira, não foi exatamente assim: eu é que peguei minhas trouxas e pedi para participar. Seja como for, acabei conseguindo um apartamento no Edifício Cinza, no centro da Cidade. Quer dizer, foi meu personagem que conseguiu – e olha que ele não vai ganhar nenhum concurso de popularidade entre os condôminos. De todo jeito, estou feliz por ter um canto na internet para postar exercícios ficcionais, mesmo que sejam sobre o Jorge – ou talvez principalmente por causa disso. Se o aluguel fosse mais caro muito provavelmente eu teria de escrever sobre outro alguém.

Sete autores e seus estilos diversos dividirão o blog. Desde o início dessa semana  um episódio piloto está sendo postado por dia, apresentando os personagens. Terça-feira é a hora e a vez de Jorge F., o novo inquilino do 204 . Mas não deixem de ler o Célio, a Lêda (com acento), o Ulisses, a Mirella, a Ártemis e o Mário. O Edifício Cinza e seus autores, moradores e síndico mal humorado agradecem.

A primeira rodada do open house é por minha conta. Quer dizer, por conta do Jorge.

Onde: n’As Crônicas do Edifício Cinza

Quando: Todos os dias dessa semana e, a partir da próxima, com uma regularidade que, oremos, não será vergonhosa.

Jorge P.: Texto de hoje: Por uma psicologia das latas de lixo

                                       Interfone para o 204

                                       Uma playlist para Jorge F.

Dos livros que li em 2012

Imagem meramente ilustrativa. Todo mundo sabe que uniforme de leitura é camiseta surrada e calça de moletom

Imagem meramente ilustrativa. Todo mundo sabe que uniforme de leitura é camiseta surrada e calça de moletom

No início de 2010 resolvi anotar todos os livros que li ao longo de doze meses. É impressionante que três anos depois eu esteja transformando a lista de 2012 em post para começar tudo de novo. Não porque não senti o tempo passar; muito pelo contrário – foram tempos agitados que operaram mudanças profundas na minha vida e no meu rosto: estou cheia de rugas novas nos cantos dos olhos – mas porque continuo persistindo em uma ideia por tempo suficiente para fazer dela um hábito. Parabéns, Gabriela.

Ora, não foi nada. Talvez eu persista porque é um hábito adorável, ao menos na maior parte do tempo. Digo isso porque pode ser meio desagradável  recordar circunstâncias associadas à leitura de alguns livros. Mas em geral é ótimo, verdadeiramente supimpa. Olhando para as listas dos anos anteriores vi que foi em 2010 que conheci Dorothy Parker, ao ler Big Loira e outras histórias de Nova York. Relembrei o entusiasmo que senti com aqueles contos, e a súbita familiaridade com aquele tipo de humor. Eu tinha que fazerda Dottie uma referência constante, tinha de alçá-la à prateleira dos autores que chamo de meus.

Também foi o ano em que ganhei em uma brincadeira de Amigo Oculto Todas as Cosmicômicas, do Italo Calvino. Ao lado de As Cidades Invisíveis, as Cosmicômicas acabaram se tornando não apenas um dos meus livros favoritos do autor, mas um dos meu livros favoritos  PONTO. Para além disso em 2010 resolvi ler uma edição de A Náusea que eu havia comprado em um sebo nos anos da graduação, e ainda não havia me animado. Talvez animação não seja bem o termo que deveria ter sido empregado em um romance existencialista, mas enfim.

Já 2011 foi o ano de Neil Gaiman, Haruki Murakami, Roberto Bolaño e Vergílio Ferreira –  estilos diversos, por vezes irreconciliáveis que correspondem grande parte das entradas daquele ano. E que só demonstram que quando eu fico obcecada por um autor, eu REALMENTE FICO OBCECADA POR UM AUTOR e não penso em mais nada. Seja por temáticas que me interessam ou dicções originais eu mergulho em páginas para entender como é que aquilo funciona e por que me toca. Outro fator engraçado que eu já havia notado ao final de 2012 foi o aumento significativo de HQs nas minhas listas de leitura – tendência que vem se mantendo e que possui um culpado: meu namorado, entusiasta  & especialista no assunto. Temos alguns interesses compartilhados  - o mais recente é o Fábulas, de Bill Willingham - mas nossos gostos acabam divergindo: eu sou bastante resistente aos quadrinhos de super-heróis, ele olha meio de lado as HQs indies. Ainda assim, acabamos conversando bastante a respeito da mídia, o que me leva a ler cada vez mais títulos, e tem como efeito colateral me fazer pensar visualmente – coisa para a qual, confesso, sou razoavelmente preguiçosa.

A lista de 2012 contém 69 livros. Fiquei espantada com o número, achei que seria menor. Passei um bom tempo no meio do ano não querendo ler nada que não fosse essencialmente necessário para a manutenção do meu doutorado ou dos meus trabalhos. Falei sobre a saturação e a preguiça de ler nesse post aqui. No mais, correndo os olhos pela lista, posso dizer que foi um ano de azarões e surpresas desagradáveis [alerta para achismos po-lê-mi-cos]: descobri que eu tenho uma  irmã Brontë favorita, e é a Charlotte. Caí no feitiço de Jane Eyre, que reli uma centena de vezes, ou foi como se tivesse relido – e olha que XIX não é exatamente o meu século para narrativas. Outros livros que me abismaram, e dos quais eu não esperava tanto: As Crônicas Marcianas, Jimmy Corrigan e mesmo Bonsai, que foi hypado ao extremo (Don’t believe the hype, eu poderia ter cantado, mas tive de morder a língua – principalmente porque rolou uma identificação autobiográfica). Também foi o ano de começar a ler o Vila-Matas e David Foster Wallace – por cuja prosa nutro sentimentos fortes e extremamente oscilantes: há horas em que me divirto loucamente e acho alguns insights nada menos que geniais. Mas há horas em que, se pudesse, eu a socaria (sim, a prosa, o homem já está morto), tamanha a presunção contida em certas passagens. Sério, cara, vá tomar uma cerveja e não me encha o saco. Se vou ter paciência para a tradução do Infinite Jest e suas 450 milhões de notas de rodapé só o tempo irá dizer.

Certos livros me desapontaram: O Cemitério de Praga e Cloud Atlas (que eu fiquei toda animadinha para ler porque metade do filme seria dirigido pelos irmãos Wachowski. Mas, ei, acabei descobrindo que é um romance multiplot sobre reencarnação), mas nenhum deles como a trilogia 1Q84. Sim, reconheço minhas inclinações de fangirl do Murakami.  No entanto, esses livros que estive esperando ansiosamente – e que não consegui aguentar até que as traduções saíssem no Brasil, tendo comprado uma edição americana que me deu uma tendinite de presente – me desanimaram. São bons livros (excelentes em algumas passagens – acho que não dá para desaprender a escrever de uma hora para outra, afinal) mas não passam nem perto das obras mais bem acabadas do japonês, como Kafka à beira mar, Minha querida Sputnik e, meu queridinho Hard-boiled Wonderland and the End of the World. Quer dizer, o Livro 1 é absolutamente promissor, mas o 2 desanda e encrespa o angu e o 3 serve a gororoba, que tem gosto bom, mas aparência trágica. Agora podem tacar pedras em mim.

Um alívio em 2012: não ter comprado A vida de Pi. Para além da treta com o Scliar (se você não sabe do que eu estou falando a Ju do Batom de Clarice fez um vídeo ótimo sobre o assunto, vai lá ver), a experiência cinematográfica me bastou. A fotografia do filme é linda, mas o argumento não me convenceu.

Segue a lista completa, para contar para meus netos – ou não. Provavelmente não.

Romances (27)

Passageiro do fim do dia – Rubens Figueiredo
Bartebly e Companhia – Enrique Vilas- Matas
The Postmortal – Drew Magary
Papel manteiga para embrulhar segredos – Cristiane Lisbôa
Jane Eyre – Charlotte Brontë
Com meus olhos de cão – Hilda Hilst
O cemitério de Praga – Umberto Eco
Psicopata americano – Bret Easton Ellis
Carta a uma amiga – Inês Pedrosa
A Obscena Senhora D – Hilda Hilst
1Q84 1- Haruki Murakami
1Q84 2- Haruki Murakami
1Q84 3- Haruki Murakami
Coração Cabeça Estômago – Camilo Castelo Branco
A mulher que mergulhou no coração do mundo – Sabina Berman
Winkie – Clifford Chase
O Terceiro Travesseiro – Nelson Luís de Carvalho
Bonsai – Alejandro Zambra
Ar de Dylan – Enrique Vila-Matas
O anjo da tempestade – Nuno Júdice
A brincadeira favorita – Leonard Cohen
La invención de Morel – Adolfo Bioy Casares
Correndo com Tesouras – Augusten Burroughs
Gêmeos – Mario Claudio
Nas tuas mãos – Inês Pedrosa
Cloud Atlas – David Mitchell
A culpa é das estrelas – John Green

Contos (15)

Ojos de perro azul – Gabriel García Márquez
O senhor Calvino – Gonçalo Tavares
O senhor Brecht – Gonçalo Tavares
O senhor Valéry – Gonçalo Tavares
O senhor Swedenborg – Gonçalo Tavares
O senhor Eliot – Gonçalo Tavares
O senhor Walser – Gonçalo Tavares
Breves entrevistas com homens hediondos – David Foster Wallace
É claro que você sabe sobre o que estou falando – Miranda July
Se eu morrer antes de amanhã – Ana Teresa Pereira
A voz do fogo – Alan Moore
Realidades adaptadas – Philip K Dick
O cavalo perdido e outras histórias – Felisberto Hernández
Foras da lei barulhentos… (vários)
Crônicas marcianas – Ray Bradbury

Não-ficção [Categoria preguiçosa que está colocando em um mesmo saco livros completamente díspares] (17)

Seis propostas para o próximo milênio – Italo Calvino
O pedante na cozinha – Julian Barnes
Antropologia do ciborgue – As vertigens do pós-humano, Haraway, Kunzru, Tadeu
A Câmara Clara – Roland Barthes
Sobre a Fotografia – Susan Sontag
Tudo o que é ruim é bom pra você – Steven Johanson
A ilha dos daltônicos – Oliver Sacks
As aventuras do menino Jesus – Alberto Manguel
Religião para ateus – Alain de Botton
Antes que Anoiteça – Reinaldo Arenas
História íntima da leitura – (vários)
Van Gogh – obra completa de pintura. Vol I – Ingo F. Walther/Rainer Metzger
Van Gogh – obra completa de pintura. Vol II – Ingo F. Walther/Rainer Metzger
Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo – David Foster Wallace
Sobre a morte e o morrer – Elizabeth Kübler-Ross
Um antropólogo em marte – Oliver Sacks
A parte do fogo – Maurice Blanchot

Poesia (que vergonha, só um.)

Poemas Escolhidos – Sophia de Mello Breyner Andresen

HQs (8)

V de Vingança – Alan Moore/David Lloyd
Jimmy Corrigan, o menino mais esperto do mundo – Chris Ware
Batman, a piada mortal – Alan Moore/ Brian Bolland / John Higgins
Batman – Asilo Arkham – Grant Morrison/Dave McKean
Macanudo 9 – Liniers
Macanudo 3 – Liniers
Mundo Fantasma – Daniel Cowes
Macanudo 4 – Liniers

Bônus track

Fifty Shades of Grey – E L James – mas foi para escrever um post, eu juro. ;)

Virose de dezembro: resoluções para o ano novo

Como naquelas consultas inúteis em que o médico nos diz que é só uma virose, ou seja, uma doença genérica que engloba sintomas que vão de “unha encravada” à “falência múltipla dos órgãos”. “Vá para casa, beba bastante líquido e se a febre exceder 37,5 tome antitérmicos de seis em seis horas. Próximo.” Pois então. Não sei se é culpa do calor, do fim do ano ou de algum elemento diluído na água que andei tomando. Causa desconhecida, efeito novo: ando vivendo dias ausentes (ou quase) de cinismo.

Pode ser que três dias de repouso e algumas aspirinas resolvam. Pode ser que não, e daí talvez eu tenha que lidar com desdobramentos imprevistos. Se eu decidisse esperar o prognóstico poderia perder o melhor dos sintomas: é bom então que eu me adiante e aproveite onda para me permitir fazer coisas que, em meu “estado normal” jamais sairiam, como uma lista de metas para 2013, por exemplo.

Por isso trato de gravar em pedra (em pixels) alguma intenção de melhora, um atestado de que não sou enfim um caso perdido e que posso até ser fiel às promessas que me farei para atravessar o próximo ano. Desde que não sejam muitas, ou muito absurdas: não tenho vocação para santa e o martírio não me cai bem. Estou menos cínica mas não fiquei mais estúpida: sei que não posso abusar da minha boa vontade. Preciso, portanto, decidir o que quero, o que é verdadeiro e importante, aquilo com o que posso me comprometer ao longo dos próximos 365 dias, e talvez além.

Não quero estabelecer metas de leitura utópicas: já está decidido que Em Busca do Tempo Perdido e Guerra e Paz serão minhas leituras da maturidade – uma maturidade que eu duvido muito que chegue, mas não me repreendam por sonhar. Já escrever mais vai acabar sendo uma coisa compulsória, em vez de um desejo genuíno. Serei obrigada a escrever muito em 2013. Só em janeiro preciso parir o texto da qualificação da minha tese de doutoramento. E quanto mais coisas sérias preciso escrever, mais encontro abrigo na confecção de textos em que não me sinto contida pela linguagem acadêmica.

Alguns quilos a menos de fato me fariam bem, mas se perdê-los significa abdicar de um chope gelado com os amigos no calor de janeiro então eu dispenso, obrigada: meu “projeto verão” não poderia ser outro que senão me divertir. Me matricular em uma academia, então, está fora de cogitação – talvez se eu comprasse enfim a bicicleta tão sonhada para fazer algum exercício ao ar livre…

Uma resolução para o ano novo que eu achava bastante sensata até cerca de dez minutos atrás era a seguinte: parar com a mania de sentar sobre os pés. Não há dia em que eu não experimente aquele formigamento incômodo que só o bloqueio da circulação sanguínea é capaz de proporcionar às criaturas desconjuntadas e, portanto, com sérios problemas de postura como eu. Enquanto pensava sobre o aumento da minha qualidade de vida caso conseguisse me livrar do mau hábito, minha mãe passou claudicando por mim, encenando mais uma vez a complexa dança do adormecimento dos membros. Certas tradições familiares são difíceis de serem extinguidas: pus os pés para cima da cadeira e não pensei mais no assunto.

Levei algum tempo no processo de decantamento dos meus desejos e ambições, mas acabei, por fim, descobrindo o que eu quero. Evidente que é bem mais fácil fazer troça da ilusão de que a vida pode ser resetada ao fim de cada ano do que fazer dessa metáfora um incentivo para tentar. E por que não? Estou, afinal, sofrendo de uma súbita carência de cinismo. Aliás, sofrendo é um péssimo verbo, não sofro nada, não hoje. Estou celebrando o pouco de esperança que nasceu em mim e no meu desejo para 2013. Um desejo modesto, e ainda assim ousado. Que exige comprometimento, mas guarda em si a recompensa. E que está longe de ser fácil, e no entanto é tão divertido.

Eu só quero ter coragem para ocupar no mundo a medida exata do que eu sou, com estômago suficiente para aturar as consequências.

Idade mental: minhas amiguinhas do Ensino Médio já viraram adultas há muito tempo

Idade mental: minhas amiguinhas do Ensino Médio já viraram adultas há muito tempo

Pós-escrito (quase) sentimental:

As amigos e leitores desse blog: obrigada por mais um ano. De coração. Não, sério mesmo. Não tomem como um daqueles agradecimentos protocolares escritos nos calendários que as mercearias dão aos seus clientes no fim do ano. Em geral as pessoas têm mais motivos para não irem com a minha cara do que o oposto e, olha, eu compreendo perfeitamente. É por isso que fico felicíssima a cada novo comentário, e-mail, contato, carinho e (mesmo) esporro que recebo. Não sei as razões pelas quais vocês continuam lendo (em vez de usarem seu tempo, por exemplo, para assistirem vídeos de gatos no Youtube): só posso dizer que, da minha parte, sei exatamente os porquês de continuar escrevendo. Mesmo nos momentos mais cínicos.


Feliz ano novo.