
Arquivos Mensais:outubro 2010
60 minutos
Um monge hare krishna tentou me vender livros de meditação “pelo preço que seu coração quiser pagar”; levei um banho de água de côco quando passei em frente a uma barraquinha – a moça sorriu e pediu desculpas, enquanto eu dava de ombros, respondendo “é tratamento de beleza, esquenta não”; um vento forte (prenúncio de um dilúvio por vir) levantou meu vestido me matando de vergonha; um menininho loiro, galante, no alto de seus três anos de vida me ofereceu seu picolé (babado) – e eu recusei.
O gato rajado com um olho verde e outro azul da escola ronronou pra mim; o gato malhado da sapataria ronronou pra mim; o gato persa do sebo não estava lá. Abri uma antologia do Borges só para reencontrar as primeiras linhas de A Loteria da Babilônia – “Como todos os homens da Babilônia, fui pro-cônsul; como todos, escravo; também conheci a onipotência, o opróbrio, os cárceres.” – e desejei ardentemente escrever uma frase que tivesse ao menos um quinto desse impacto.
Comi com pressa um nhoque sem sal; queimei minha língua e gastei R$3,50 numa Pepsi light, um péssimo negócio; o Brasil fez um gol contra o Irã e todo mundo no restaurante comemorou. E foi nesse momento de distração que limpei a boca suja de molho no guardanapo que estou usando como bloco de notas.
E durante todo este tempo estive imaginando como as pessoas gastam a hora de almoço delas, antes de voltarem para todos os seus ares condicionados, em seus escritórios.
Ponto, crachá, café. E lá vamos nós de novo.
Marketing pessoal avariado
Tá certo, a epifania deveria ter sido minha, mas bem que o universo poderia ter ajudado um pouquinho, mandando sinais mais óbvios. Não que eu seja do tipo que necessita de céus se abrindo ou sarças ardentes falantes; sempre me considerei razoavelmente boa na arte de captar sutilezas & ironias. Ok, visto em retrospecto, o que aconteceu em abril foi praticamente o soar das trombetas do apocalipse, mas eu considerei que o incidente havia se dado tão somente porque estava em um meio familiar.
Tolinha.
Em abril deste ano, durante as comemorações do meu aniversário, fui surpreendida pela recorrência de um mesmo presente por parte dos meus amigos: Orgulho, Preconceito e Zumbis.

Antes de torcer o nariz para o livro, tente se convencer de que só a capa já não é genial. Han, han? Deixa de ser mal humorado, Harold Bloom!
O mashup literário com a obra da Jane Austen virou o presente perfeito para mim, na opinião de uma algumas criaturas que me aturam há vários anos. Tá certo, eu reconheço: há poucas pessoas que podem apreciar tanto quanto eu uma invasão zumbi na Inglaterra campestre do século XIX. E menos gente ainda que, depois de ter lido Orgulho e Precenceito algumas vezes – e de adorar Jane Austen – pode realizar um sonho antigo: ver Elizabeth Bennett (minha personagem favorita!) enchendo o senhor Darcy de merecidas porradas nada vitorianas. E a ingênua aqui achando que “ai-que-legal, como meus amigos me conhecem bem”…
Hoje eu sei que a questão é de marketing pessoal avariado. Vejam, recebi de um colega do meu trabalho novo - e ele me conhece há menos de um mês, meldels! – o seguinte vídeo:
Alguém duvida que quase já sei toda a letra de cor?
Quando fui comentar com ele que havia achado fantástico, recebi um “eu sabia que você ia gostar”.
Opa, opa, peraí: que tipo de maluca as pessoas acham que eu sou? (por mais que eu tenha adorado). E eu achando que meu verniz social era bom, ou pelo menos razoável.
Alguém tem um livro de auto-ajuda bom por aí, pra me emprestar? “Os ratos alienígenas mexeram no seu queijo” ou “Como fazer andróides e influenciar replicantes” deve servir.
Update: 18/10
Estou trabalhando quietinha, na minha, e eis que recebo o seguinte e-mail:
Gabi,