Minha professora de português da sétima série me disse que eu “era até bonitinha, mas precisava dar um jeito no cabelo”. Porque, claro, isso é coisa que se diga a uma criança de 12, 13 anos. Corta a cena para semana passada, comigo entrando em uma loja de maquiagens. Uma menina de não mais que uns 10 anos estava sendo atendida pela maquiadora, enquanto a mãe explicava cheia de razão que a guria precisava de mais corretivo, porque tem olheiras profundas desde pequena (???).
O patrulhamento tanto sobre nossos corpos quanto a respeito dos papéis que devemos desempenhar começa cedo, bem cedo. A própria família muitas vezes é a primeira a tentar enquadrar a prole em modelos socialmente aceitos. Meninas precisam ser dóceis, educadas e vaidosas. Meninos são estimulados a serem pró-ativos e agressivos, e qualquer ponto fora da curva é motivo de preocupação e violência nos mais diversos níveis. Eu provavelmente poderia passar os próximos dez parágrafos falando sobre como a divisão de interesses e comportamentos em dois times antagônicos é redutora e perversa, mas vou deixar uma mocinha mais madura e eloquente fazer um resumo da ópera no meu lugar, para passar ao ponto que realmente me interessa: a coroação da Merida como uma Princesa Disney oficial.
Nesse fim de semana aconteceu a coroação da Merida – a princesinha escocesa de Valente - na Disneylandia. O que quer dizer, na prática, que a personagem entra definitivamente para a franquia Princesas e vai ajudar a encher os bolsos dos executivos da empresa com a venda de todo tipo de produtos. O problema todo – quer dizer, o problema todo para além da agressividade da propaganda infantil – é que a menina espoleta virou, do nada, um mulherão. A Merida do filme ganhou uma versão repaginada:
Está mais magra, bem proporcionada. O corpo não é mais o de uma jovem em desenvolvimento e sim o de uma mulher. Ganhou um vestido novo que, para além de parecer mais desconfortável que o antigo, ainda é cheio de brilhos. A faixa de couro que servia como “pochete”de flechas virou um cinto marcando os quadris. O decote aumentou, os ombros estão à mostra. Os olhos estão maiores, ela usa maquiagem e o cabelo passou por uma boa hidratação, porque os cachos estão “comportados”. Muito me admira que não tenham obrigado a princesa a fazer chapinha.
A questão é que nada disso combina com a personalidade da personagem: ser bonita não está na lista de prioridades de Merida. Herdeira de um trono na Escócia medieval, ela está presa à tradição que determina que os jovens de outros clãs disputem o direito a tê-la como esposa através de uma competição. Resolve ela mesma brigar pela própria mão, desafiar a família, e continuar sendo quem é, sem ninguém enchendo o saco sobre o seu lado tomboy. Brenda Chapman, a criadora da princesa e co-diretora do longa, que diz ter baseado a personagem em sua filha adolescente, não está nada feliz com a transformação da pequena. (Leia aqui – em inglês). Não é para menos: é só olhar o histórico das princesas da Disney para ver que tipo de mensagem elas estão passando para as menininhas.
Branca de Neve, Cinderela e Aurora conseguiram seu “felizes para sempre” porque eram bonitas, o que as fez merecer príncipes encantados que se livram de todo o mal sozinhos. As sortudas que venceram na loteria genética contavam ainda com benfeitorias proporcionadas por fadas madrinhas – mulheres mais velhas e, no geral, alcoviteiras. No caso específico da Branca de Neve há toda a treta com os anões que deveria ser tabu e aparentemente não é – mas deixa quieto.
Branca de Neve, Cinderela e A Bela Adormecida ainda têm a desculpa de terem sido feitos em de 1937, 1950 e 1959. Já A Pequena Sereia foi para o cinema em 1989 e conta a história da sereiazinha sem noção que larga tudo pra ir tentar a sorte com o príncipe encantado. Renega não apenas sua origem, mas seu melhor atributo – a voz. Falar pra quê, não é mesmo, minha gente? É essa a linha de argumentação de Ursula: “Homem abomina tagarelas/ Garota caladinha, ele adora./ Se a mulher ficar falando, o dia inteiro fofocando./ O homem se zanga, diz adeus e vai embora/ Não! Não vá querer jogar conversa fora,/ Que os homens fazem tudo pra evitar./ Sabe quem é a mais querida?/ É a garota retraída/ E só as bem quietinhas vão casar!” Seria apenas o discurso da bruxa recalcada se Ariel não conseguisse de fato conquistar o partidão de boca fechada. Vai vendo.
Bela queria “mais que a vida do interior” e, em vez de se mudar para Paris, desenvolve Síndrome de Estocolmo por seu abusivo sequestrador em A Bela e a Fera. Jasmine até tenta fugir do palácio para se livrar dos pretendentes arranjados pelo pai em Aladdin, mas no final é salva pelo rapaz corajoso de origem humilde que provará seu valor. Idem para a Rapunzel, de Enrolados. A pobre coitada da Tiana, de A princesa e o sapo, ralou a vida inteira para juntar dinheiro para abrir seu restaurante, e acabou casando com um playboy de origem nobre que não era chegado a trabalhar. Mulan é outra: apenas salvar a China não é um final bom o suficiente: é preciso que ela aceite o pedido de casamento do cidadão que a deixou pra trás quando descobriu que o Diadorim que havia salvado a vida dele era, na verdade, Diadorina. E, ainda por cima, é sempre retratada em trajes de festa – sendo que ELA CANTA UMA MÚSICA INTEIRA SOBRE COMO SE SENTE INADEQUADA COM TODO AQUELE MIMIMI DE MULHERZINHA. Nesse sentido, a mais sortuda de todas ainda foi Pocahontas que despacha um John Smith ferido no navio de volta à Europa, porque “não vai rolar de ir junto não, querido, foi mal aí”.
Não me levem a mal: não tenho absolutamente nada contra o romance em si ou a felicidade conjugal real ou fictícia; inclusive sou uma das que caíram direitinho no conto do Amor Romântico, é o tipo de coisa que confesso sem problema algum. Também não estou questionando a vaidade, se a mulher assim o deseja: que use o que bem entender e que gaste 2 minutos ou 200 na frente do espelho, se isso a faz feliz. Tampouco odeio os filmes da Disney – o parágrafo anterior muito provavelmente delata o tanto de vezes que eu devo ter assistido cada filme para lembrar todas as passagens de cabeça – mas um pouco de senso crítico é necessário. As princesas da Disney – à exceção da Leia – não são exatamente bons exemplos de independência pra garota nenhuma, e isso é péssimo quando são elas os principais modelos nos quais as meninas acabam se espelhando.
Por isso Merida é necessária, porque é diferente. Tem um corpo e uma aparência realista e alcançável, não anseia por príncipe encantado algum, resolve seus problemas sozinha e mostra que uma princesa também pode ser corajosa e atlética. E, no entanto, quando ganha um banho de loja, próteses de silicone, uma lipo, um dia no spa e perde seu arco característico, que mensagem é passada, a não ser a de que ser bonita é mais importante do que ser valente?
Sinto muito pela minha professora de português da sétima série, e por não ter tido maturidade suficiente para dizer a ela, na época, que fosse cuidar da vida. Também sinto pela menininha e pela mãe na loja de maquiagens, assim como sinto pelo protagonismo negado a grande parte das princesas da Disney, e por tantas outras meninas e mulheres que abraçam ideais inalcançáveis e terríveis de beleza, amor e feminilidade. Sinto muito enfim pela Merida, que, se pudesse opinar, tiraria com pressa toda a maquiagem da cara, vestiria algo confortável e sairia a toda de cavalo por aí. No que, convenhamos, estaria mais do que certa.
(Os gifs que ilustram esse post são retirados de um programa de TV que ultrapassa todos os limites do bom gosto, da bizarrice, e das denúncias ao Conselho Tutelar – Toddlers and Tiaras – que acompanha o cotidiano de menininhas que participam de concursos de beleza)
















